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terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Imóveis não são pés-de-alface

 


Por Glória W. de Oliveira Souza[1]

 

 

A arquitetura construtiva é um produto na qual a vida útil de um prédio depende de vários fatores intrínsecos à construção e ao ambiente em que o edifício está. Em média, um prédio dura de 50 a 100 anos, mas isso vai depender muito de como foi construído, do uso ao longo dos anos e da manutenção. Portanto, um imóvel não deve ser tratado como produto perecível. Pelo contrário. Em razão de suas características, a valorização tem ritmo acelerado; a não ser que seu ciclo de vida tenha sofrido enormes e profundas deteriozação.  

 

Entretanto, um pé de alface, vendida em bancas de feiras-livre, tem uma vida útil perececível que não dura mais do que seis horas, o tempo de duração deste tipo de comercialização. Nesta, o valor  remuneratório do produto logo na abertura de uma feira-livre (por volta das 6h00) difere da mesma quando é vendida perto do encerramento (por volta das 12h00)

 

Recentemente uma empresa instituiu no mercado de venda de imóveis uma modalidade em que recomenda aos proprietários a redução no valor, alegando que a prática atrairia mais interessados. Ignorando a obviedade, a empresa despreza o que move as pessoas no desejo de adquirir imóvel. Não é a atratividade (capacidade de atrair, de chamar a atenção, de encantar; produtos sem atratividade não são comercializados) dos preços, mas sim a sua necessidade de possuírem um local seguro e próprio para habitar. E assim pensam porque a natureza de um imóvel é a sua longevidade e durabilidade. Portanto, não se deve confundir atratividade com efetividade de venda. Ao longo da longevidade de um imóvel está os investimentos e cuidados aplicados que os fazem o mesmo ter sua longa existência. Isso sem falar que o imóvel – a depender de sua localização, facilitação de serviços e produtos, apegos culturais, entre outros - elevam o valor intrínseco do mesmo.

 

A mesma empresa que pratica essa modalidade de marketing, contradiz com estudos próprios de mercado em que apontam que a prática visa tão somente reduzir a remuneração ao proprietário, pois o valor da comissão – 6% do valor da venda – não muda (é lei), pois, a empresa apenas ‘empresta’ sua plataforma e retém parte desse índice. Estudos realizados no primeiro trimestre de 2024 apontam aumento de 3.73% no metro quadrado (m2) em comparação com o ano anterior. Para efeito comparativo, escolhemos o bairro Bela Vista, área central da cidade de São Paulo e conhecido por seus serviços, acontecimentos e atendimentos às necessidades individuais e coletivos.

 

No primeiro trimestre de 2024 houve alta tanto nos valores anunciados como nos contratados. A valorização é visível em comparação com o quarto trimestre de 2023, com alta de 2,03%. Como exemplo, um imóvel no bairro com 53 m2 anunciado pelo proprietário por R$ 370 mil, foi recomendado pela empresa para reduzir para R$ 315 mil. Só que o valor auferido no primeiro semestre é de R$ 7.570 o metro quadrado. Ora, ao fazer-se uma simples conta de multiplicação, o valor real – de mercado – deveria ser de R$ 401.210. E não R$ 315.000, já que o bairro é um dos mais caros da cidade em metros quadrados na cidade.  Neste exemplo, os imóveis da Bela Vista viraram pés-de-alface.

 

Mas, como numa geada com granizo numa plantação de pés-de-alface, a plataforma também não se importa com o prejuízo do ‘produtor rural’ (aqui o proprietário do imóvel), pois a remuneração da venda talvez o impeça de adquirir outro em substituição, pois o mercado é dinâmico e está sempre em elevação. E, como a maioria dos adquirentes necessitam de financiamentos, o ano de 2025 rompeu com a elevação dos índices de juros nessas modalidades, tanto no sistema bancário público como nos privados. Catto apontou que “quem decidiu buscar um financiamento de imóvel com a Caixa Econômica Federal em 2025 encontrou juros mais altos do que os praticados no ano passado”. Passou de 10,99% em 2024 para 12% ao mês em 2025”[1]. O autor completa que “o banco considerou esse índice devido a 'fatores mercadológicos e conjunturais', para essa elevação”. Leia-se: realidade do mercado. Portanto, a recomendação para que proprietários reduzam o valor de venda de seu imóvel soa descabido e em desacordo com o universo imobiliário vigente.

 

De acordo com advogada Daniele Akamine[2] - especialista em mercado imobiliário - o custo total do imóvel irá sofrer forte alta, “no qual o valor total é constante durante o prazo contratado, o aumento na prestação é semelhante”. "Há também o impacto na renda. Quanto maior a prestação, maior a renda que o cliente precisa ter para conseguir o financiamento", explica Akamine. Ela anota ainda que "isso acaba tirando de muitas famílias a oportunidade de financiar a casa própria." Segundo a especialista, a cada elevação de 1 ponto percentual (p.p.) nos juros de financiamento imobiliário, 300 mil famílias deixam de conseguir comprar um imóvel. Gradativamente, os outros bancos também estão elevando as taxas. É um balizador do mercado. Então, quando o banco sobe o custo do crédito, os outros seguem o mesmo caminho, lembra a advogada. Portanto, a tática de negociação das plataformas de intermediação vai na contramão da realidade mercadológica visando tão somente aumentar o seu caixa e enganar os incautos[3] proprietários.

 

Enquanto isso, os juros básicos do mercado financeiro do país estão em tendência de alta, o que gera reflexos diretos no financiamento imobiliário. Em outras palavras: uma Selic mais alta — e com previsão de continuar em patamares elevados por mais tempo — puxa para cima as taxas praticadas pelos bancos, tornando mais caro financiar a casa própria. Desta forma as empresas digitalizadas[4], bem como as virtuais[5] (também conhecidas como startups), “estão totalmente inseridas nas novas tecnologias “com plataformas disponíveis dia e noite, buscas filtradas, processos informatizados, atendimento online, assinaturas a distância e outras facilidades”. E, segundo o Google, 90% das negociações de imóveis começam na web apontando a existência de 839 startups ativas no Brasil no ano de 2021[6]. Hoje esse número é maior. Desta forma, os imóveis não podem continuar a ser tratados como ‘pés-de-alface’ a mercê da ganância mercadológica, onde, já existem – e rondam o solo brasileiro – incorporadoras chinesas que constroem prédio de 10 andares em 10 dias[7].

 

 

Fontes consultadas:

https://csustentavel.com/minuto-azul-ep9/#:~:text=O%20Ciclo%20de%20Vida%20de,ao%20seu%20fim%20de%20vida.

 

https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/781323/1/ct68.pdf

 

https://publicfiles.data.quintoandar.com.br/sale_report/RelatorioCV_1T_2024_Novo.pdf  

 

 



[1]  CATTO, André. Caixa eleva juros do financiamento imobiliário: veja simulação, entenda como era e como fica. Acesso em 10 jan. 2025. Disponível em https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/01/10/caixa-eleva-juros-do-financiamento-imobiliario-veja-simulacao-entenda-como-era-e-como-fica.ghtml

[2] CATTO, André. Op. Cit. Acesso em 10 jan. 2025.

[3] Diz-se “de ou aquele que não tem cautela; descuidado, imprudente. Que ou o que é destituído de malícia; crédulo, ingênuo”. Oxford Languages; Significado de incauto. Disponível em https://languages.oup.com/google-dictionary-pt/ . Acesso em jan. 2025.

[4] Na era da internet, em tudo e todos têm algum tipo de presença online, é uma imobiliária digital é simplesmente uma imobiliária com seus serviços e conduz seus negócios também pela internet. In SOUZA, Glória W. de Oliveira, Dossiê: Cuidado!!! Propaganda enganosa (ou duplo sentido) é crime. São Paulo-SP; jul. 2021. 

[5] SOUZA, Glória W. de Oliveira Souza. Op. Cit. Acesso em jan. 2025.

[6] Id, Ibidem.

[7] Vide SOUZA, Glória W. de Oliveira Souza. Condomínio, edital de convocação. https://clubedeautores.com.br/livro/condominio-edital-de-convocacao-2